20 de Janeiro de 2022
- figtreevic

- 20 de jan. de 2022
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Digníssimo amigo, como estão as coisas?
Já que estamos recordando tempos passados nestas nossas últimas cartas, gostaria de lhe contar, pois acho que nunca conversamos sobre isso, quando foi que eu percebi que escrever era minha vocação.
Minha mais antiga recordação remonta à tempos em que não consigo definir precisamente minha idade.
São memórias esparsas, sem conexão direta, mas que quando colocadas em conjunto formam uma imagem quase exata da minha vida por volta dos oito, nove anos de idade.
A primeira imagem sou eu, logo após chegar da escola, provavelmente já almocei o que nos coloca entre meio dia e uma da tarde. Como é de se esperar de qualquer lugar no Brasil, lá fora o sol quente faz as plantas se dobrarem e os trabalhadores serem mais preguiçosos. Mas quanto a mim, estou mais preocupado em pegar um punhado de folhas de ofício, novinhas (eu não gostava de usar as que estivessem marcadas ou amassadas, até hoje não gosto) e então as separava em grupos de cinco e com a precisão do engenheiro que eu me tornaria no futuro, as dobrava exatamente no meio, para que formassem um pequeno livrinho.
A partir desse ponto minha memória dá um pequeno salto, um salto de grilo. Não se passaram mais do que trinta minutos acredito, mas na mesinha já se acumulam cinco daqueles caderninhos. Estão todos grampeados e com cuidado vou colocando um a um na mochila.
Era algo impensável passar cinco horas inteiras na escola se eu não tivesse esse punhado de caderninhos comigo.
Na próxima imagem já estou na escola, se no dia seguinte ao da imagem anterior, só Deus sabe, mas estou sentado, o rosto quase rente ao tampo da carteira, o aluno sentado à minha frente lança uma agradável sombra sobre o papel e sobre minha atividade, ocultando do professor minha desatenção. Com desengonçado traçado eu escrevo em um daqueles meus caderninhos com uma caneta (provavelmente uma BIC azul). As letras são enormes e um punhadinho de linhas é suficiente para encher por completo uma daquelas páginas.
Esse comportamento vai me garantir picos altíssimos de ansiedade que acompanhavam cada entrega de boletim ao final do ano.
Estamos falando de 1998 ou 1999.
Faltava cerca de um ano para a virada do milênio.
Com dez anos eu conheci um querido amigo que me acompanhou por todo meu ensino fundamental. Gustavo. Ele era bem o estereótipo do estudante aplicado. Acima do peso. Aparelho. Criado com vó.
Eu não me lembro do Gustavo escrevendo ou desenhando, mas uma coisa ele fazia, ele lia tanto quanto um dedicado estudante de direito. Acho que ele virou advogado, mas não tenho certeza. O que importa é que ele tinha tantos livros que nem sequer se importava de me emprestar alguns.
Àquela época eu até lia, mas eu preferia ficar escrevendo, (leia-se copiando de maneira levemente diferenciada) sobre tudo que eu gostava.
Não me lembro como foi, mas sei que foi o Gustavo que me mostrou O senhor dos Anéis. Eu deveria rezar por ele algumas vezes por ano por causa disso.
Agora aqui eu tenho uma nova imagem para você.
Dessa vez eu estou correndo pelo shopping indo direto para a livraria. Meu pai está comigo mas ele não tem tanta pressa quanto eu.
Eu preciso chegar lá antes que os livros do Senhor dos Anéis acabem.
Se eu soubesse de antemão que havia uma pilha deles na entrada da livraria, não teria feito a menor diferença, ainda assim eu teria corrido.
Provavelmente eu estava falando sem parar. É o que eu faço até hoje quando estou animado.
Lembro-me até hoje daquela pilha verde e branca sobre uma mesinha de madeira redonda logo na porta da livraria.
Lembro-me até do preço. R$ 37,90.
Se não me engano, naquela época a livraria colocava os livros em um saquinho de papel pardo.
Não tenho mais nenhuma memória do livro depois disso. A única coisa que eu sei é que depois do A sociedade do anel, nada mais foi igual.
Pensando bem eu deveria dividir minhas orações anuais, metade para o Gustavo e metade para o Tolkien.
Eu larguei de lado as folhas de ofício dobradas e peguei uma agenda velha que meu pai tinha ganhado no trabalho e que milagrosamente minha mãe não tinha preenchido quase por completo com uma letra, até hoje, ilegível. Dez páginas já não eram mais suficientes para minha ambição.
Mas para falar a verdade, não acho que tenha sido a história, ao menos naquela época, que me fez desejar escrever. E se assim for, metade das orações anuais para o Gustavo / Tolkien deveriam ser direcionadas para o Geoff Taylor.
Geoff Taylor é o resposável pela maravilhosa capa do livro lançado pela editora Martins Fontes 22 anos atrás.
A imagem é tão incrivelmente detalhada e possui tantos elementos que eu me pego até hoje descobrindo coisas que eu não tinha reparado durante minha juventude.
Os heróis a cavalo descendo por uma sinuosa trilha. As árvores antigas, retorcidas, o musgo cobiando-as no lugar da própria folhagem. A trilha começa iluminada, mas a medida que serpenteia floresta adentro, a escuridão vai se fechado ao seu redor. Um último vislumbre da luz solar, um raio rápido o suficiente para vencer a barreira cada vez mais densa de galhos, forma um arco luminoso dourado sobre os aventureiros. Para o observador mais desatento, uma águia que parece escapar dos dedos recurvos das árvores e que voa, fugida quase, em direção ao raio de sol, pode passar desapercebida.
Não é só uma imagem. É uma promessa de uma aventura cheia de mistérios, perigos, companheirismo e símbolos.
Sou dado a ficar comparando coisas, meu caro amigo, e não posso deixar de escrever que a vida mesma é como aquela estrada serpenteando floresta adentro. São os amigos, companheiros e companheiras, os mestres, e por fim a beleza, que nos guiarão até o último raio de sol. Até a salvação.
Desta vez você têm bastante coisa pra ler então não me censure se eu demorar alguns dias mais para lhe escrever de novo.





Minha paixão por escrita começou quando criança com o livro do Peter Pan. Eu alugava esse livro na escola toda semana!
Mas qdo, assim como vc descreveu, resolvi que era minha vocação, foi quando eu descobrir o mundo do Harry Potter! Fiquei fascinado como a JK ROWLING tinha criado um universo onde não tinha pontas soltas. E como aquelas histórias me pretendiam e eu passava horas com um livro na mão.
*Eventualmente li Senhor dos Anéis, mas eu comprei a versão completa, os 3 juntos. Aquela bíblia maravilhosa.
Adoro Tolkien!
gostei da carta, enxerguei toda a lembrança descrita 😊
Aline Silva Dexheimer