26 de Janeiro de 2022
- figtreevic

- 26 de jan. de 2022
- 4 min de leitura
Querido amigo,
Espero que as coisas estejam bem por ai.
Por aqui os dias estão cada vez mais frios e quando as densas nuvens se abrem para deixar um pouco de sol passar, eu agradeço.
Nestes últimos dias estive pensando em algo que meu querido professor, Rodrigo Gurgel, sempre diz. Na importância de se ter um ritual para o momento da escrita.
Eu sempre escutei esse conselho com particular atenção. Ao longo dos anos meus rituais variaram na mesma medida em que variavam também as histórias que eu gostaria de contar. Já escrevi na mesa de jantar, já escrevi em um escritório e por incrível que pareça, e escute bem porque este foi um dos melhores locais, já escrevi dentro de um armário usando uma prateleira como mesa. Para mim existe um encanto quase sobrenatural quando trabalho em locais apertados. Minha imaginação me leva a supor que diferente de um simples armário, eu na verdade me encontro em uma minúscula cabine de um navio atravessando o escuro oceano em algum lugar gélido e remoto ou então estou escrevendo metido em um canto escondido de algum refugio em um futuro distópico.
Embora os locais em sua maioria fossem, digamos, normais, era preciso que internamente eu os considerasse únicos, exclusivos para o momento em que eu estivesse escrevendo.
Para que essa "sensação" fosse verdadeira, eu utilizava de tudo que estivesse ao meu dispor. Se meu escritório fosse a mesa na sala de jantar, então eu a cobria com um pano diferente, algo que anulasse a mesa de jantar e a transformasse em uma espécie de outra coisa, um altar dedicado a escrita, talvez. Quando trabalhava no armário, eu jamais entrava lá a não ser no momento em que fosse escrever, ao entrar e fechar a porta, eu me acostumei a me transportar para outro lugar, uma dimensão interna, e veja que isso é muito importante, se eu tratasse aqueles locais como locais comuns, então invariavelmente minha mente também os trataria dessa maneira e em pouco tempo aquele templo e lugar exclusivos à escrita eram subvertidos e destronados por atividades mais corriqueiras que pela força do cotidiano, expulsavam a escrita e trancavam-na para fora.
Depois de erguer e solapar tantos locais de trabalho, pode-se dizer que me tornei quase um especialista, e como tenho-o como um fiel amigo, vou lhe contar alguns segredos, que você precisa me prometer, continuarão ocultos dos demais até que se provem dignos de recebe-los.
A primeira coisa que gostaria de lhe contar, é que o ritual precisa passar por uma transformação.
Geralmente tendemos a criar nosso ritual voltado única e exclusivamente para a escrita, assim sendo, ou lemos um livro, ou fazemos anotações esparsas, ou então recitamos algum trecho de poema ( ou invocamos a musa, assim como fazia Homero). Mas eu lhe digo uma coisa, é preciso que o ritual diário de escrita acrescente etapas pouca ou nada relacionadas com o ato de escrever em si.
Veja o exemplo das simpatias. Somos um dos povos, se não o primeiro, na crença em simpatias. E eu li em algum lugar que quanto mais passos a simpatia tiver, maior será a crença depositada nela. Veja que os passos de uma simpatia às vezes em nada se relacionam ao seu objetivo final. Assim sendo, o que lhe digo é que faça o mesmo.
Para que fique mais claro vou lhe dizer o que eu faço. Antes de iniciar qualquer dia de trabalho, eu primeiro fervo a água do café e então tomo banho. Após o banho eu preparo o café que será consumido durante o dia. Depois de separar todo o material que irei utilizar e preparar minha mesa, antes de me sentar para escrever, eu lavo as mãos. É meu jeito de me "limpar" das outras atividades e me declarar inteiramente limpo para o ato de escrever. Estou colocando assim, além do local e do tempo determinados, uma separação de nível ainda maior entre as outras atividades e a escrita.
Quanto mais passos você adicionar ao seu ritual preparatório, maior será o efeito e maior concentração você obterá no final. Ao executar aquelas simples etapas que em nada se relacionam ao objetivo final, mas que dia após dia vão seguindo uma regra específica, o cérebro já vai se preparando e acostumando com a nova rotina de maneira mais fácil e menos, digamos, indolor.
Uma outra dica que tenho para lhe dar, e essa eu só fui perceber recentemente, é que se deve realmente estabelecer um horário específico. Mas se você quiser obter melhores resultados, escolha um período de tempo que antes não era utilizado para nenhuma outra atividade. E neste caso, até mesmo ficar atoa é um tempo já utilizado com algum intuito. Por isso eu sugiro levantar-se mais cedo. Ao estabelecer uma rotina em um horário que seu corpo e mente estão acostumados a não ter absolutamente nada para fazer, você não vai precisar se preocupar em ser tentado por aquela atividade de antes o que vai tornar o processo de estabelecimento de uma nova rotina muito mais fácil e proveitosa.
Teste e me diga se funcionou para você.
Abraços,





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