21 de Novembro de 2021
- figtreevic

- 21 de nov. de 2021
- 2 min de leitura
Cara amiga,
Estes dois últimos dias estudando no atelie foram, assim como você havia dito que seriam, incrivelmente proveitosos. É impressionante o quanto se pode aprender simplesmente observando um mestre na técnica trabalhando. Seus movimentos de mão, a inclinação que utilizam o pincel ou mesmo a força que utilizam em sua técnica, cada uma desses micro-detalhes tão difícies de se captar através dos livros de arte saltam aos olhos diante de um virtuose trabalhando.
Dito isso, preciso dizer também que fico feliz que minha arte é a escrita e não a pintura. Não é que eu considere uma arte menor, nada disso, por vezes mesmo desejei que eu fosse também um virtuose da pintura, desejei mesmo, mas me falta tanto a técnica quanto talento, e se Flaubert estava certo ao dizer que o talento é uma longa paciência, tanto pior, me faltariam então três coisas ao invês de duas.
Aprendi bastante nesses dois últimos dias, e para meu alívio, encontrei no atelie, nos ensinamentos e na observação cuidadosa, as soluções para os erros que eu cometia em casa. Quem diria que a leve mudança na inclinação do pincel pudesse surtir efeitos tão extraordinários capazes de transformar cores densamente misturadas em penas que não só modificam o desenho mas lhe conferem uma espécie de essencia própria, como se por um segundo, por um traço colocado no lugar certo, a vida parasse por alguns instantes naquela imagem e se reconhecesse nela.

Que sentimento inigualável.
E é ai, cara amiga, que nós artistas nos perdemos. Todos nós, de todos os tipos, pintores, escritores, escultores, poetas, todos, do mais baixo ao mais alto grau, do aprendiz ao mestre, somos igualmente seduzidos pela oportunidade de capturar esse instante em que a arte retem a vida.
Nós sentimos, não é? Sentimos que ela está ao nosso alcance. Só precisamos alterar uma ou duas coisas.
Acreditamos tolamente que a perfeição desejada se encontra na próxima palavra que tentarmos ao invés daquela já escolhida. Acreditamos que a beleza está logo ali, depois de mais um novo retoque, uma pincelada à mais naquela face que até instantes atrás parecia já tão bela. E então de súbito sentimos também que algo profundamente essencial mudou. Aquela sensação de proximidade com a vida se tornou um pouco mais opaca. E o que fazemos? Paramos por ai? Jamais! Jamais!
Temos certeza redobrada que a terceira palavra escolhida sintetizará tudo que queriamos dizer antes! Que uma cor mais escura dessa vez realçará as sombras que darão o sentimento aos olhos vazios daquele retrato! E dai pra frente nos afundamos cada vez mais ao não perceber que a beleza e ai vida residiram em nossa obra antes exatamente pela simplicidade que tinham.
Dizem que o diabo mora nos detalhes, e os detalhes sendo na maioria das vezes, ornamentos, não são excenssiais a uma boa obra, qualquer que seja ela.




Comentários