23 de Novembro de 2021
- figtreevic

- 23 de nov. de 2021
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Nobre amigo,
Recentemente passei pela praça onde costumávamos nos sentar para conversar depois de um longo dia de trabalho. Não reclamo do trabalho. Fazíamos serviço básico, mas comíamos da melhor carne todos os dias. A minha área de trabalho, escondida nos fundos do salão do restaurante, era parada obrigatória dos garçons, quase como uma mesa vip. E ali nos empanturrávamos com verdadeiro banquete.
Às vezes, só às vezes, sinto falta daquela época.
Quanto a praça, tudo parecia exatamente igual, e em dois anos acho que a única mudança foi sua estúpida decisão de ir para outro país.
Sentei-me no mesmo local, naquele banco de madeira com vista para a avenida e para os jardins do parlamento.
Eu lembro especificamente de uma noite quando voltávamos do restaurante. O inverno ainda não havia começado, mas o outono já estava quase feito e um vento gelado soprava. Ainda era cedo, não mais que 23:45. Para quem às vezes trabalhava até 01:30 da manhã estávamos na vantagem. Tínhamos ainda um bom tempo para poder sentar e conversar antes que o corpo ficasse gelado demais e o sono nos agarrasse pelas pálpebras.
Ora, conversar sobre escrita e literatura com a barriga cheia e ainda chegar mais cedo em casa? Um copo de café para esquentar o corpo e alma e então o dia seria perfeito.
Lembro que naquele dia conversávamos especificamente sobre a falta de disciplina e regularidade que nos afetava.
Ambos, um prosador e um poeta, acumulávamos em nossas casas resmas e resmas de papel usado. Folhas preenchidas de cima a baixo com textos que jamais veriam a luz do dia. O problema não era que nos faltavam ideias. Não, ideias tínhamos muitas. O que nos faltava era a disciplina para levá-las a cabo. Morriam, coitadas, à mingua, como plantas em um vaso sem água. Perdiam-se como folhas secas, quebradiças, largadas em algum canto e por um vento imperceptível, levadas para longe. Não fisicamente, fisicamente elas ainda estavam ali, mas já não significavam quase nada. Os textos depois de abandonados pela falta de regularidade se tornavam estranhos, irreconhecíveis, impessoais. Não ressoavam de maneira alguma com o que tínhamos naquele instante depois, na cabeça. Tenho até hoje caixas e caixas de papel escrito que não me dizem nada além da obviedade de alguém desesperado para escrever.
Uma hora da conversa eu disse: "Precisamos simplesmente sentar e escrever".
Como algo tão simples, e pior, que realmente desejávamos fazer, pudesse ser tão árduo a ponto de nos manter na inatividade por dias à fio?
Repeti como manta sagrado a frase. Preciso simplesmente sentar e escrever.
É claro que de nada adiantou, ainda estamos aqui, dois, três anos depois na mesma situação.
Nos faltava maturidade, caro amigo. Maturidade e disciplina.
O desejo por si só é coisa de moleque.
Eu lhe digo que a vida tem sido boa comigo. Mas depois dos trinta, e um dia você vai chegar lá, você vai notar que algo dentro de você mudou.
Aos trinta parece que finalmente sua embalagem teve o lacre de segurança rompido. E que o ar começou a vazar. Você ainda terá muito, se Deus quiser, muito tempo de vida, mas algo essencial mudou.
A noção do fim, que quase nunca existe antes dos trista anos, de repente está lá. A noção de que o tempo é a mercadoria mais valiosa se torna tão pungente que só é possível suporta-lá pelo trabalho exaustivo naquilo que lhe faz bem e não naquilo de que se gosta.
Sentar para escrever todos os dias, por mais que eu ame, me causa dores físicas quase. É como uma luta feroz contra um animal selvagem que deseja de todo não ser controlado.
Antes dos trinta eu achava que algum dia esse animal simplesmente desistiria e que deixaria ser levado por uma dócil mão. Agora, aos trinta um, eu me engalfinho com ele todos os dias com a certeza de que se ele for deixado quieto, mais cedo ou mais tarde ele irá me devora em forma de uma vida inútil.
É preciso maturidade, disciplina e trabalho.
Se lhe peço algo, é que não seja como eu, não espere até os trinta. A ilusão da imortalidade que você ainda tem faz você acreditar piamente que esse animal selvagem jamais o irá devorar, e isso, meu amigo, é uma vantagem gigantesca para quem quer vencer.
Não saber que pode ser derrotado.
Espero que você esteja bem e que as chuvas constantes não lhe tenham endurecido os dedos.





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