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24 de Janeiro de 2022

  • Foto do escritor: figtreevic
    figtreevic
  • 24 de jan. de 2022
  • 2 min de leitura

Às vezes fico impressionado como as coisas mais simples são capazes de despertar em mim um profundo impulso narrativo.

Mudei três vezes nos últimos três anos. Nesta última mudança estivemos procurando por um local mais afastado do centro urbano, um lugar onde pudéssemos estar rodeado mais por espaço aberto do que por outros prédios e casas.

O que percebi é que quase todo local afastado foi construído apenas aonde as linhas ferroviárias permitiam, o que faz com que quase toda residência, prédio ou condomínio tenha em seu quintal uma linha de trem.

Procuramos por algumas semanas até encontrar um lugar que parecia realmente interessante. Como não podia deixar de ser, o mapa marcava uma linha de trem próxima. Só não fazia ideia do quão próximo era.

O apartamento era realmente bom, mas ficava mais perto da linha de trem que qualquer outro lugar que eu já tivesse visitado. E se a distância não fosse o bastante, a frequência com que os trens passavam chegava a beirar o absurdo. Como é possível que tenham tantos deles circulando?

E você não faz ideia do quão longo eles são. A fila de containers parece sumir no horizonte longínquo, interminável.

Na falta de encontrar um outro local melhor, optamos por ficar assim mesmo.

Confesso que no início me preocupei.

Mas você não imagina quão maravilhoso é ter uma máquina possante como essa a um curto olhar de distância.

Toda vez que ouço ao longe o anúncio de um novo trem se aproximando, já me posiciono à janela para divisar aquela magnifica máquina capaz de movimentar gigantescas toneladas por distâncias inumanas.

Mas meu conhecimento sobre trens só vai até ai. Não conheço quase nada, mas toda vez que vejo um deles atravessando a linha ao lado de casa me pego imaginando todos os locais que aquele trem e principalmente seu condutor, vão atravessar em mais uma viagem de costa à costa.

Quando o trem fica estacionado por um breve período aqui em frente por algum motivo, e olha que acontece com bastante frequência, fico pensando se o maquinista estaria disposto a conversar um pouco. Tenho uma curiosidade quase infantil de saber como é a vida viajando sobre os trilhos.

É verdade que as linhas de trem cortam praticamente todas as cidades, mas a maior parte da viagem é feita por regiões inóspitas e isoladas onde a natureza é a única companhia.

Será que ele sente medo? Será que ele gosta? O que será que seus olhos tão acostumados aos indicadores do painel já viram nos ermos isolados onde os olhos dos homens quase nunca pousam?

E veja, não são só os maquinistas que tem história para contar. Todos aqueles containers com marcas, nomes, códigos e indicadores, todos eles estão lhe contando alguma coisa. Quantos mares eles já atravessaram? Quantas cargas já estiveram contidas no seu interior? Um trem, só é preciso um trem para que minha imaginação já divague e me leve a regiões nunca antes vislumbradas. A única coisa que eu preciso e ir até a janela e observar.





 
 
 

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