7 de Dezembro de 2021
- figtreevic

- 7 de dez. de 2021
- 3 min de leitura
Caro amigo,
Preciso lhe contar uma situação um tanto quanto irritante.
Sabe àquelas vezes em que escutamos um conselho, uma frase, e por mais verdadeira que ela seja, por mais certa, nós acabamos ignorando seus ensinamentos e continuamos vivendo normalmente? Pois é.
Passamos a vida inteira escutando que algo é ruim e que deve ser evitado, nos dizem isso nossos pais, nosso guia espiritual, nossos livros sagrados, e como bons humanos que somos, ignoramos.
Então de repende aquele mesmo conselho é dito, às vezes com as mesmas palavras, e aí algo ressoa em nosso interior e aquele conhecimento é absorvido como se os escutássemos pela primeira vez.
Que comportamento mais estúpido! Essa aleatória ressonância entre palavra e homem é, de verdade, enervante.
O que há de novo que nos fez mudar dessa vez? Nada, não há nada!
Imagine, meu caro, imagine quão mais fácil seria se pudessemos assimilar certas verdades desde o primeiro momento em que as escutássemos?
Eu jamais teria perdido um dia sequer da minha vida!
Poderímaos inclusive, para o bebê ainda no ventre, colocar ao invés de Bach e Bethoven, conselhos de vida! E então já nasceriamos prontos para nos sobressairmos sobre as intemperies deste mundo. Quiçá elas nem existissem!
Me perdoe as delongas, fato é que dias atrás acabei por ouvir uma palestra em que um famoso ator de hollywood dizia que deveriamos cortas os excessos.
Deve ter sido isso que ressou em mim, cortar os excessos.
Já havia ouvido conselho semelhante em dezenas de outros lugares, hora como "tenha foco", hora como "concentre-se no que é importante", ou então "tudo em excesso faz mal", ou como no livro mais importante de todos, "Se achares mel, come o que te basta, para que não te fartes dele e venhas a vomitar".
Mas de todos esses, "cortar os excesssos" foi o que me acertou.
Eu já não sabia que quando se cortam os excessos em um texto, fica apenas aquilo que é realmente necessario? Como dizem, escrever bem (às vezes) é falar mais com o menor número de palavras.
E veja que isso não se limita apenas ao campo dos ofícios. As leis da vida, ao contrário das leis e teorias físicas, não se limitam por campos de aplicabilidade.
Nossa jornada por este mundo se torna cada vez mais difícil à depender do peso que carregamos conosco. E escolhas pesam. E muitas escolhas pesam muito mais.
Uma pessoa que não se dedica a nada, que não põe seu coração naquilo que faz, mas pelo contrario, faz tudo ao mesmo tempo, quer ser tudo ao mesmo tempo, acaba por não ser nada. Quando se tem muitos caminhos a percorrer ou se fica parado, ou pior, se perde.
É como um alpinista que carrega toda a bagagem que encontra pelo caminho. Antes que atinja o topo, se é que algum dia chegará a ve-lo, já estará exausto e estafado. Aquele que, diferente do primeiro, sabe exatamente o que carregar desde os primeiros momentos, só irá coletar durante a subida aquilo que lhe falta e que lhe é necesário e assim o topo não só é possível, como também mais facilmente alcançável. Às vezes temos a erronea impressão de que esse peso extra que carregamos é o que nos aquece, nos protege, que nos fará ter um destino diferente dos demais, e até certo ponto é verdade, mas ao longo da jornada ele não fara nada mais além de nos tomar a energia e a capacidade. Morreremos feito os demais, quase ao sopé da montanha, soterrados em inutilidades que achavámos serem excenssiais.
Para descobrir quem se é realmente por exemplo, não é necessario muito, pelo contrário, é preciso muito pouco. Quanto menos for, melhor.
A essencia de quem realmente somos, daquilo que realmente desejamos fazer e ser, nos acompanha durante toda nossa existência mesmo que cercada de excessos que insistimos em carregar.
Por isso, meu velho amigo, decidi por tirar (quase tudo) aquilo que identifiquei como excesso e que vem me atrapalhando durante a subida desta montanha chamada Escrever. É preciso nestes momentos de decisão, ser coerente, se me proponho a tirar tudo de uma vez, dez vezes maiores são as chances que eu falhe.
Nesta escalada já me bastam as dificudades de terreno, atmosfera e clima, não me sujeitarei a perigos que eu posso escolher sofrer.
Você não precisa esperar minha próxima carta para saber se estou certo ou não, minha empreitada e minhas palavras tem como testemunha a humanidade e seus melhores.
Quanto a você, sugiro que faça o mesmo, todos aqueles problemas que vive me relatando e dos quais nunca se livrou por completo, na certa deixarão de existir se seguirmos juntos no mesmo caminho.
Corte os excessos!





Comentários